Amanda II





 por Thales Mileto

De repente uma figura assustadora e sombria apareceu atrás daquele anjo de vestido e as trevas cobriram as luzes e uma voz falou “pode entrar Amanda, eu falo com ele” a ela só restou entrar deixar um sorriso daqueles de lado, com vontade de quero mais, enquanto seu pai me interrogava para saber o que eu estava fazendo lá, depois me virava às costas quando eu lhe contava sobre o incidente da madrugada passada. 


A figura, que ontem era um poço de negatividade e que hoje parecia à personificação do paraíso me olhava distante virar as costas para tentar pegar o ônibus para o trabalho, com um olhar cheio de intenções, mas sem nenhuma certeza. Mesmo atrasado e correndo o risco de perder ônibus para o trabalho, o grande e persuasivo Jornal Centenário, do qual fica localizado no centro, nada parecia importar naquele momento, nem mesmo o raro domingo de folga perdido com a mudança, o sentido na minha vida acabou e renasceu com aquele anjo de pernas mais brancas que o seu vestido, com íris mais negras que seu cabelo, com sorriso mais provocante que seu corpo, era uma ninfa de uma floresta que já não existe mais, que foi desbravada e destruída pelos portugueses, e que agora habita a Califórnia tupiniquim e seduz os tolos, como eu, com o seu canto nos leva para o mar e quando nos damos conta não sabemos mais como voltar. 


Depois de atravessar a ponte, eu sábia que só faltavam 5 minutos até chegar ao jornal, quando cheguei notei que meu trabalho era diferente da rua onde eu morava, ninguém notou o meu atraso, muito menos a minha presença, ou se notou fingiu que não viu, me sentei rápido e logo minha bolsa se perdeu no meio de tantas pautas assim como minha mente se perdeu na imensa confusão de meus pensamentos, era tudo junto, trabalho, mudança, incidente da madrugada e ela, Amanda, era capaz de sentir seu gosto sem nunca ter a provado, mas que eu sentia em meus lábios. 


O dia demorou em passar, foram exatas 9 horas desde que eu saí de casa, para depois voltar, mas o meu dia em particular parecia ter voado, nem as pautas, as dificuldades de realiza-las ou a morte de Bowie foi o suficiente para frear a minha rotina e quando vi já estava na poltrona de casa, jogado, acabado, mas sedento da presença daquela que havia me condenado à prisão dentro de suas íris e entre seus dentes, no meio de suas pernas, eu poderia navegar em cada milímetro daquela pele, mais branca que o branco, e trilhar o seu corpo pelas poucas curvas que ele possui, nenhuma delas acentuadas, mas todas perigosas, e te conduzem a um caminho sem placas e as luzes que nascem dele te dão a impressão de estar no paraíso, mas você não se dá conta de que na realidade são as portas para o inferno.


O convite para o inferno entrava pela janela do quarto e seguia em direção à sala, até encontrar o meu nariz, era um aroma doce que me seduzia e me fazia levantar para seguir o seu rastro até a janela, de lá eu avistei Amanda, aquela criatura divina, que agora olhava nos olhos de Jah e o confrontava, enquanto eu apenas pude ficar observando a forma com que ela conduzia aquela ‘cabeleira vermelha’ até a sua boca, como ela puxava prendia e depois a descartava, como se nada mais nessa Babilônia existisse, a não ser ela e Jah. Aquele parecia ser um encontro místico entre o exterior dela com o seu eu, e desse encontro nada se ouvia, apenas se sentia, acredito que seus pais estavam a sentir o que eu também sentia naquele momento, talvez a vizinhança toda sentia. 


Aquele momento celestial vivido naquele quarto por Amanda foi interrompido pelo seu pai, aquela figura nefasta e autoritária, que incomodado com aquele rastro que também habitava em suas narinas, quase arrebentou a porta do quarto ao abrir, o mundo parecia ter tremido junto com ela, com a porta, com Amanda, ela sábia que com seu pai não existia dialogo, diferente da forma que eu a via, seu pai e sua mãe enxergavam Amanda como um extraterrestre, vindo de um planeta de outro sistema solar, de outra galáxia, com outros costumes, outros ideais e outros princípios, mas aquilo era um segredo do casal, não tinham a intenção de assustar o pobre mundo e a porcaria da sociedade com aquela noticia “olha mundo existe um estranho entre nós”. Após ser arremessada na parede e levar um tapa na cara, Amanda permanecia da mesma forma de quando seu pai entrou, com o sorriso escondido e olhos cabisbaixos, eu continuava a olha-la, meus olhos estavam acorrentados àquela figura, branca, pálida, sensível e encantadora, que se levantara de sua cama e caminhava em direção a uma penteadeira, que ficava encostada na parede e dava de frente com a janela do quarto, e nela tinha um espelho.


O short preto quase desaparecia debaixo de uma camiseta branca enorme, com a gola V (Cortada à mão por Amanda), e ficava quase que invisível quando ela andava, quando chegou a frente ao espelho e se olhou com o mesmo olhar que ela havia me olhado, colocou a mão em seu rosto, no local onde tomou o tapa, e deslizou descendo pelo seu pescoço e despindo seu ombro, quando notou o minha imagem refletindo no espelho, ela se virou rapidamente para a janela, da forma que estava, com o ombro descoberto, enquanto eu dei um passo para trás, para esconder-me nas trevas de meu quarto.   


A escuridão parecia o caminho mais fácil para eu me esconder de mim mesmo, tentar me esconder daquela vontade incontrolável que eu tinha de manusear o seu corpo e apertar sua cintura, despindo todo aquele branco que a envolvia com o fogo sua imagem despertou em mim, mesmo me afastando de Amanda ela parecia estar mais próxima de mim, se eu desse um passo a diante eu poderia estar com ela e se eu desse um passo atrás eu também estaria com ela. Mesmo quando eu tomei a minha decisão, sair da escuridão de meu quarto para vê-la e ela não estava mais lá, a verdade é que seu corpo poderia mais estar lá, mas meus olhos e seu espelho gravaram aquele momento, aquelas imagens e aquela figura.


A cama já havia desistido de mim há pelo menos duas horas, e quando o ponteiro marcava 3 da manhã eu comecei a temer que o livro que eu tentava ler a duas horas e não conseguia também desistisse de mim, como acabou acontecendo, eu estava quase desistindo de mim, estava cansado e não queria dormir, meu corpo doía, mas não queria descanso, eu precisava, mas ia meu corpo e alma não chegavam a um consenso com a sanidade e tudo o que eu precisava eu não queria, existia apenas um único acordo entre todas aquelas vibrações, o universo, minha alma, meu corpo e minha existência, e seu nome atendia por Amanda, aquele ser de luz própria e pernas brancas e cintura quase reta, que somava sua falta de sensualidade com o seu jeito de menina, que escravizava os meus olhos, minha boca, meu cérebro e meu coração. 


Depois da minha cama e do meu livro nada mais parecia querer me fazer companhia, a não ser a minha velha e fiel garrafa de uísque, era eu, o uísque, o chão, o pó, meu Jah ‘e meu orixá’, naquela celebração a carência, naquela fuga que eu queria ter de mim, de Amanda e seu sabor que não saía de minha boca, eu ficava ali, jogado e pensava o porquê céu é azul? Por que a terra está girando? Por que o teto está girando? Por que estou excitado? Por que estou triste? Queria saber quando e como eu me tornei o homem que sou homem que sou hoje, nem doce, nem amargo, nem salgado, nem azedo, um cara sem sabor, imaginava a decepção minha ao sair daquele DeLorean DMC-12 modificado, e direto do passado para um futuro sem cor, sem sabor, sem sonhos, sem eira nem beira, aquele momento era como o espelho da minha alma e eu podia ver a minha vida como ela realmente era, o que realmente ela tinha, ou no caso, não tinha, ‘não tinha teto, não tinha nada’.

O tempo passou e o uísque se foi, sem que eu percebesse Jah e o Orixá já não estavam mais ali também, e o pó que me acompanhava só havia ficado porque ficou colado em minha samba canção, era chegada a hora de voltar para a cena de meu crime, sim, naquela janela, quando vi Amanda em frente ao espelho, eu tive a certeza, naquele instante eu tive a minha vida tomada e a queria de volta.


De samba canção e sem camisa, lá estava eu caminhando pelo corredor e voltando para a minha sina, para o meu destino, para o meu calvário, para o quarto, os meus passos eram lentos, porém fortes e faziam eco em casa e nas casas vizinhas, foi como um alarme, não era preciso mais acender as luzes para saber que eu estava no quarto, mas afinal para que me preocupar, não tinha ninguém a minha espera lá, pelo menos era o que eu pensava, ao abrir a porta vi uma pequena luz entrando pela janela do quarto, aquilo era mais um convite para que mais uma vez eu fosse até a minha cova para me apossar dela, eu não podia hesitar, era como se todas as dúvidas e medos que eu tinha antes tivessem acabado quando eu coloquei o pé dentro do quarto e olhei aquela janela, e foi caminhando até ela é que eu abracei a certeza de viver com a incerteza, ao abraçar a minha morte eu percebi que também abraçava a minha vida e vi que Amanda me condenava à vida.  


Quando cheguei à janela, lá estava ela, Amanda, como se estivesse a me esperar, de costas, com uma camiseta enorme branca, que chegava até o meio de suas coxas e com a gola cortada, marcando os ombros, em frente ao espelho e usando ele para retribuir o meu olhar com aquele olhar com aquelas íris divinas e diabólicas que se posicionavam no canto dos olhos e com um poder sobrenatural me hipnotizava e me davam asas, asas a minha alma, que aterrissava logo atrás de Amanda, que levava a sua mão direita ao cabelo, fazendo que assim eu conseguisse ver melhor o seu rosto de seu corpo de frente, sua mão esquerda começava a abaixar a parte de sua camiseta que ficava no ombro direito bem lentamente, conforme sua mão levava aquele pedaço de tecido de algodão para baixo ficava mais evidente à estrada que levava meus olhos de seu ombro ao seu seio direito, tão branco quanto o resto de seu corpo, em pé, com formato de pêssego, aureola rosa, não era grande, mas se encaixava com perfeição naquela obra divina que atende pelo nome de Amanda. Conforme aquela mão ia caminhando pelo seu corpo eu começava a ver parte do seio esquerdo dela, assim como o direito, ele era em pé, com formato de pêssego, aureola rosa e brancos, os dois se casavam perfeitamente. 


A cada movimento que Amanda fazia com suas mãos ela abria outro daqueles sorrisos, de canto de boca, com vontade de quero mais, e me olhava com aquelas suas íris sedutoras que invadiam os meus olhos, perturbavam minha alma, aqueles olhos de ave de rapina pareciam serem capaz de ver cada gota de suor que nascia de meus poros no rosto e a apreensão neles, ela também percebia o movimento de minhas mãos, então de uma hora para outra aqueles olhos se fecharam por um instante, de repente as mãos que seguravam a camiseta soltaram-na, restando assim somente sua cueca feminina preta vestindo uma parte de seu corpo. 


Com o corpo seminu, as mãos de Amanda estavam preparadas parar serem as protagonistas do que haveria de vir. Era como se aquele ser de luz própria, e corpo desnudo, me puxava para o inferno cada vez que suas mãos percorriam aquele corpo iluminado. Às mãos que acariciavam e apertavam os seios eram as mesmas que deslizavam por sua barriga descendo até a sua cueca feminina e a penetrando-a. Ela já poderia fechar seus olhos sem ter a preocupação de olhar para o espelho para me achar nele, ela sábia que enquanto ela estivesse lá eu estaria então fechou os seus olhos e tirou seu sorriso malicioso do rosto para morder seus lábios molhados de saliva e apertas com força seus seios enquanto sua outra mão estava dentro da calcinha. As suas unhas começavam a deixar rastros e arranhões por onde passavam, mas ela não ligava, porque assim como o amor anda de mãos dadas com o ódio, à dor está junto com o prazer. 


As mãos de Amanda estavam no corpo dela, mas era como se estivesse no meu, cada vez que ela se tocava, arranhava e apertava, era o meu corpo que sentia, era meu corpo que era acariciado, tocado, apertado e arranhado, era também chegada a minha hora de fechar os olhos, eu sábia que mesmo se eu abrisse os olhos e ela não estivesse mais lá, ela estaria comigo, gravada em minhas íris, com aqueles seios brancos e empinados, com formato de pêssego, com duas cerejas rosa nas pontas, então lá estava eu, de olhos bem fechados, em êxtase, com minha pele e pelos arrepiados e minhas mãos ganhavam vida própria. 


Naquele êxtase da madrugada, a loucura era tanta, que apesar de nossa distância, tudo se bagunçou entre nós, era uma mistura de bocas, dentes, pelos, peles, unhas, marcas, que transformou aquelas cena em uma bola de neve de vibrações e sensações que desciam em cima de uma avalanche. Era possível sentir os toques de Amanda em mim, era possível tocar em Amanda, sentir o sal de seu suor e o sabor de seu hálito, sua respiração no meu rosto, sua boca na minha, seu colo no meu, estava claro que para mim, não existia mais o meu quarto ou quarto de Amanda, existia apenas eu e ela, almas livres e condenadas viverem na pele o fogo e a ardência que somente pessoas loucas, fora dos moldes e esquadros da moldura social, com uma visão diferente de mundo, com atitudes caóticas, pensamentos desajustados, atitudes rebeldes, almas libertadas que cospem na cara do conservadorismo. Eram apenas dois seres condenados a viver e não apenas sobreviver, pessoas condenadas a exercer o poder de serem donas de seus próprios destinos, de seus próprios narizes e fazer com eles o que desejassem, ou no caso, o que se desejassem.

Existiam desejos que mesmo que eles quisessem pareciam serem impossíveis de acontecer, parar o tempo era um deles, mesmo que o tempo parou para ver Amanda, o sol começava a nascer, e assim como o tempo o cansaço parecia ser mais um desejo impossível para nós, que no meio de tanto êxtase, desejos, e a pureza de dois anjos aproveitando o melhor do paraíso e do inferno, na verdade é que Amanda e eu não os notamos, mas o tempo e o cansaço estavam nos observando há muito tempo, eles eram os voyeures dos voyeures e nem mesmo eles poderiam se controlar com isso o tempo passou, o cansaço chegou e a noite acabou.

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