Traga-me teu coração...


O silêncio ecoou por toda a floresta.
E, aproveitando o paradoxo,
A bruxa também se amoitou, quieta.
O canto dos pássaros, o balançar das copas...
Tudo havia ido embora de repente,
Restaram apenas suas esperanças, quase mortas.
Um estranho ser se movia entre as folhagens,
E quando sua face despontou em meio ao verde,
A feiticeira perguntava-se se não passava de uma miragem...
Ele caminhou como se fosse seu Cristo, 
O coração dela já desconfiado,
Analisando o tamanho dos riscos...
Os olhos dela alucinavam-se com os traços do rapaz,
E ele demorava-se com os passos,
Trazendo no olhar um brilho sagaz;
Aos poucos, foi se afastando dos arbustos,
Os lábios sedentos,
A língua que pedia por um passeio por teus músculos...
Mas ao olhar com mais atenção, um choque:
A marca que se escondia nas costas do anjo,
Lhe davam a certeza de que ele não pertencia àquele bosque.
Perguntava-se se ele estaria ouvindo tua respiração,
Se ele viera para tortura-la,
Ou se estava apenas em busca de outra distração;
“O que o traz ao meu lar?” – indagou
O anjo permaneceu imóvel,
A mulher, agora com agressividade, retrucou:
“Esse bosque é sagrado! Trate de tomar seu caminho!”
Mais silêncio,
A resposta que obteve foi um travesso risinho.
O anjo grudou teus olhos na mulher...
E naquele instante ela soube.
Não era um carcereiro qualquer.
Era o homem que havia tomado a sua dor!
O anjo que a resgatara das chamas...
Que assumiu sua pena por amor!
Recordava-se da última vez que fitara os globos verdes...
Ele implorava para que ela fugisse,
Enquanto teu sangue jorrava por toda a cidade...
Não sabia ao menos o nome de teu salvador;
Mas criara imagens heróicas,
Escrevendo cartas e cantos de amor...
Foi tola a bruxa, sem mais nem menos...
Amou de tal maneira, 
Que deixou teu amor pegar carona nos frios ventos...
Agora ele estava bem ali, real.
Teus traços marcantes,
Os braços a prendendo ao corpo, quase de forma brutal.
Mas ela não queria escapar desse abraço.
Queria ser pega de surpresa,
Ver-se embrenhada em teu colo para repousar de teu cansaço...
Pediu que o anjo a desse uma carona em tuas asas;
Juntos voariam para longe,
Encontrariam algum outro bosque para chamar de casa...
Agarrada ao perfume do amado,
Sentiu algo queimar em teu peito:
Seria aquilo teu amor esparramando?
Mas estava longe disso.
A seda branca colada à tua pele agora era vermelha...
Ela sangrava e ele não continha o riso.
Apesar do espanto em sua face, já esperava tal ato.
A bruxa mais uma vez fora seduzida,
Para depois se ver vítima de um qualquer estelionato.
Com tudo se tornando borras à tua volta,
Pode vislumbrar uma última vez a perfeita silhueta.
Como pode ser tão fácil para ele lhe dar as costas?
Mas ela não chorava pelo amor traído...
Lhe doía vê-lo carregar teus livros,
Juntamente com teu legado que logo seria esquecido...
Suas lágrimas se misturavam à terra,
Era um lobo deixado para morrer;
Mas não sabiam que sozinha não uiva, ela berra!
E agora todos podiam ouvir teus pesares.
Tua sede por vingança se alastrando,
Se fazendo sedenta em outros falsos amores...
“Você me deu a tua palavra” – foi a acusação.
E a sentença seria logo alcançada,
Pois a bruxa agora queria, de fato, o seu coração!

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