Nasci bruxa e não para agradar...

Tudo havia começado na noite anterior. 
Perguntaram se tinha cortado as madeixas, 
Mas era a sua aura que já não tinha mais pudor. 

A menina agora já não era mais feita de traquinagens,
Erguia os punhos por teu povo.
Não se sentia a mesma, pois agora assumia sua origem.

A criança nascida do próprio inferno, 
Destinada a concretizar a justiça, 
Até para aqueles que se colocavam em pedestal eterno. 

Com tua lâmina fazia com que temessem teu nome. 
Era conhecida como “Dama da vingança”, 
Aquela que seduzia e depois carregava as almas para teu Diabo com fome.

Mal sabiam eles que não havia por trás da dama um cavalheiro; 
Ela se tornava sua única meretriz,
E também era o próprio rei traiçoeiro.

Mas se eu lhe contar, guarde segredo... 
Pois nenhum mortal ousaria dizer, 
Que esta bruxa já teve também um dia medo. 

Costumava amoitar-se em qualquer canto,
Sabendo que o teu amor a consumiria, 
Colocando-se antecipadamente em prantos. 

Esses dias faziam com que ela parecesse em perigo. 
Querendo alguém que a aconchegasse, Um estranho a quem pudesse chamar de amigo...

Mas os amigos pareciam escassos agora. 
Eles davam suas palavras, 
Mas palavras que eram só da boca para fora... 

Como podia ser tão fácil brincar com teus sentimentos? 
Depositando amor em palavras 
E depois espalhando-as ao vento... 

A bruxa queria explicações, 
Queria fazer justiça; 
Impedir que tal traição fosse usada contra outros corações! 

Mas queria também proteção, 
Um abraço caloroso 
Em que pudesse repousar teu coração. 

E naquela noite a amiga “Sônia” resolveu ficar... 
A menina era ouvida por ela,
Que também tinha muito a falar. 

Mas “Sônia” gostava de conversar por cartas. 
Oitenta e duas folhas ao todo, 
Uma lista de coisas de que ela já estava farta! 

Número um: os amores que faziam sangrar... 
Amores consumistas, 
Como fogo consumiam a vida que ela dava ao amar. 

Número dois: o medo e a insegurança; 
Esses já entravam sem pedir licença, 
Desde que a bruxa era apenas uma criança... 

E por fim: a confiança que colocava em todos. 
Mesmo que soubesse dos riscos, 
Ela tendia a dar mais ênfase ao querer dos “amigos”. 

E por isso havia perdido sua essência. 
Sua rebeldia e insubordinação 
Sendo diminuídas à mera “falta de decência”. 

Mas agora os tempos eram outros... Retomava teu posto como vingadora. 
Tua aura de coragem sendo restituída aos poucos.

Não seria outra vez domada por aqueles meros mortais. 
Tinha consciência agora de sua grandeza, 
Sabia que teus golpes não só os feriam, mas poderiam ser fatais. 

E prometeu que usaria isso a seu favor... 
A bruxa não iria mais batizar teu sofrimento, 
Nem a traição, com o estranho nomo de “Amor”.

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