Selene



 Existem várias versões de como eu conheci Selene, a que eu mais gosto foi na infância, muito antes que os nossos pelos pubianos começassem a aparecer ou que hormônios dominassem nossos ossos e carnes. Éramos seres pequenos e muito bem comportados, com os nossos primeiros uniformes de guerra, indo para a Escola, infelizes, andando de mãos dadas, de cabeça baixa e olhando os detalhes escondidos no deserto camuflado de chão a nossa frente.

 Era incrível como o roteiro destas lembranças era idêntico ao de algum filme qualquer norte-americano, onde o mocinho, no caso eu, estava aprisionado dentro de uma camisa social branca por dentro da calça preta e também social, e uma gravata pequena vermelha, enquanto Selene fantasiava-se com meias brancas 3x4, saia de pregas, camisa social branca por dentro da saia, suspensórios, gravata com três listras e sapatilhas pretas.

 Era incrível como a vida começava a ganhar cores quando o sol refletia nos lindos e longos cabelos negros, o tempo podia parar para eu olhar para aquela imagem, que ganhava cores como a passagem de outono para primavera, era uma magia com um poder maior e mais forte do que qualquer vagina exerceu sobre a minha pessoa. Naquela época em que eu contava os hormônios nos dedos das mãos e não me sentia incomodado com os problemas do mundo (os mesmos de hoje, fome, guerra, corrupção, violência, conservadorismo...) exceto por uma coisa que sempre afetou o meu mundo, a versão verdadeira da história....

O encontro

 Apenas algumas latas de cerveja a serem sorvidas em uma tarde quente que logo viria a se tornar uma fria noite de sábado, 4 de abril (de 2014), mas para Selene, responsável pela proeza de secar uma lata após a outra entre um cigarro e outro, naquela tarde que logo vestiria seu véu negro para se tornar noite, significava a sua liberdade, mesmo que ela soubesse que aos olhos alheios fosse apenas mais uma loucura inconsequente, como todas as loucuras são inconsequentes pra quem não as cometem. 

 Lá estava ela, ali, sentada, no canto, um canto qualquer, no canto da sala, lá estava ela, a quase 500 quilômetros de casa, da casa dos pais, lá estava ela cursando Universidade Federal. As informações eram muitas, as opiniões a respeito de sua vinda à aquela casa também eram, talvez fosse apenas o destino que a levara para lá, talvez fosse a busca pela liberdade além da cerveja, à procura da chave que está na janela, na luz do sol da janela, ou apenas pelo tesão que toma conta de nós nessa idade, 20 poucos anos,  e que a fez perder as contas de quantas pedras de asfalto tem da casa de seus pais até a aquela casa! Tudo isso para tentar ter em seus braços a sua infância, ou melhor, uma amiga de infância.

 Os traços finos não eram comuns na ponta da pena que desenha faces ocidentais, lembrando o rosto de uma índia fake hollywoodiana, interpretando de forma bonita pessoas mortas ou exiladas de sua terra, vestindo uma calça florida, camisa branca que estampava o rosto do cantor David Bowie, coturno, maquiagem em preto e branco, os cabelos negros, combinados com humor tímido, ausência de sorriso e olhar penetrante, tudo dava a Selene ares de Mortícia, aumentava mais o ar de mistério em volta daquela desconhecida no canto da sala. 

 Aquele local, o canto da sala do amigo de sua amiga, parecia mais um altar de igreja, distante, frio e solitário, não sendo o lugar ideal para descobrir ou ser descoberta por alguém e, apesar de ter cruzado quase 500 (km) quilômetros, deixava no ar o sentimento de não estar aberta a descobertas. 

 Maira, a tal amiga de infância, era o único elo entre ela e o restante da sala, talvez fosse à única pessoa, naquele manicômio de sábado, que oferecesse alguma segurança e que possivelmente entenderia o seu papo e suas ideias loucas, ou ao menos tentaria fingir e não seria sincera a ponto de dividir com ela o que ela via como a verdade, coisas que apenas velhas e verdadeiras amizades são capazes de proporcionar ao coração sem chaves

 Talvez a chave da janela de Selene fosse Maira, uma chave de 1,60m, belos seios, empinados, em pronto para serem devorados pelos olhos alheios naquela sala ao olharem para aquele decote, bunda e coxas roliças, debaixo de calça legging e uma pele que uma hora era um leite, outra um mel, que transformava Maira não apenas em um objeto de desejo, mas em uma deusa, para aqueles loucos vagabundos que habitavam aquele cômodo da casa sonhando em virar o sábado para o domingo no Monte Olimpo do amor que fica entre as pernas de Maira. 
Poetas, músicos, idealistas, sonhadores, formadores de opinião, esquerdistas, budistas, umbandistas, ateus e malandros formavam os ‘loucos vagabundos’, que nada mais eram do que jovens inconsequentes, bastardos de um mundo sem lei e pais de atitudes e ideias marginais, delinquentes, baderneiros que dão vida e iluminam está esfera, das pontas achatadas, que roda em volta do sol, implorando um pouco de luz, deixando a monotonia para os antepassados do antepassados, e iluminando a escuridão forçada, reacionária e conservadora dos jovens velhos seres humanos. 

 Esbanjando toda sua malandragem com um sorriso em que seus dentes se confundiam com a sua malicia, Julius, era um dos personagens mais ativos na sala naquela tarde, transformava qualquer simpatia ou gesto de bondade humana em puro xaveco, Julius era uma malandro a moda antiga, com apenas 23 anos ele já era pai de 2 filhos, com duas mulheres diferentes, ele se achava enólogo e via o corpo da mulher como uma garrafa de vinho, sem medo de ser machista, degustando cada parte do corpo das meninas que caiam em seu papo. Era daquele tipo de ser humano que nasce com o DNA privilegiado de quem veio a este mundo para dominar a arte de ser vagabundo e se orgulhar de ser quem ele é, sem emprego fixo, sem profissão definida, sem mascaras, sem frescura, sem lenço e sem documento, Julius foi o meu primeiro elo com o grupo, nós éramos vizinhos na adolescência, eu, dois anos mais velho, me sentia como um aprendiz ao ficar ali sentado na calçada, após jogar bola, apenas ouvindo suas mentiras sobre as mulheres enquanto a lua vinha empurrar o sol e as estrelas transformavam o céu em um tapete e Julius transformava a rua em sua sala de aula, onde ele era o professor e eu o aluno que aprendia sobre a principal virtude do mundo, a mentira. 

 Enquanto Julius dava mais um trago na garrafa de vodca, no outro canto da sala, um sujeito totalmente o oposto de Julius e dos outros 7 bilhões de habitantes neste planeta, contraditório como qualquer ser humano que respire uma mistura de nitrogênio, oxigênio, argônio, dióxido de carbono, neônio, hélio, monóxido de nitrogênio, criptônio, metano, hidrogênio, protoxido de nitrogênio, xenônio, dióxido de nitrogênio, ozônio e radônio, mas Kim exagerava na arte da contradição e sendo tão contraditório que até a contradição se contradizia. Tentando mais uma vez contradizer as normas de qualquer casa de uma família comum, Kim estava a bolar, mesmo que escondido, um baseado, querendo desafiar o dono da casa, Mr. Mojo Risin, um senhor bem apessoado, com cerca de 50 anos, que mesmo barrigudo andava sempre sem camisa e costumava dar aulas de como todo anfitrião deveria ser, esbanjando simpatia, transformando os visitantes em piadas e o principal, não se passavam 5 minutos sem que ele levasse uma rodada de cerveja para a sala, mas não aceitava a cannabis sativa em sua casa. Desafiar ou contradizer alguém, mesmo que esse alguém fosse ele e mesmo que parecesse bobo, e era, Kim considerava essa prática perigosa e excitante, tanto que anos mais tarde aquele garoto que ia mudar o mundo, mudar o mundo, agora assiste a tudo em cima do muro, que dormia nos acampamentos do MST –Movimento Sem Terra- organizava passeatas e participava de manifestações na USP- Universidade de São Paulo- viria a ter um casamento heterossexual, após anos flertando com a homoafetividade e desafiando a sociedade, foi de revolucionário ao um homem morto aos 30 anos, pai de família, que renegou durante muito tempo a fortuna do seu pai, carros, celulares e até a Coca-Cola, mas que vivia uma vida boa financeiramente, mesmo sendo professor da rede estadual. 

 Todo o carisma de Mr. Mojo Risin durante aquela tarde ajudava a dar mais liberdade a Selene, não as que as pessoas presentes queriam dar, mas a liberdade que ela precisava. De repente aquela sala começou a esvaziar, as pessoas que ali estavam, com exceção de Selene, foram, pouco a pouco mudando seu foco para a cozinha, onde havia algumas tigelas de amendoim, misturadas com cinzeiros em cima da mesa. 

 Naquele instante só habitavam aquele cômodo algumas latas de cerveja vazias, a televisão, veiculava programa de música, e Selene. Vendo aquela cena foi inevitável que Maira se lembrasse de Selene quando elas duas eram apenas dois pontos sem importância no texto da vida e que a vida parecia não ser tão cruel, pelo menos não na infância delas, onde elas se conheceram ainda pequenas e pensavam que girar o mundo era girar em volta de suas casas, ambas de vestidos brancos, com os sorrisos e olhares inocentes, correndo uma atrás da outra, mas dessa vez parecia que Selene preferia correr sozinha em um mundo diferente e solitário, notando isso Maira pediu a uma pessoa de sua confiança, Clara, que fosse fazer companhia a ela. Maira podia ter feito companhia a Selene, mas ela queria tentar enturmá-la, além de saber que retirar-se de uma roda de conversas para ser exclusiva de Selene, poderia confirmar a visão que as pessoas estavam tendo de sua amiga, o de uma pessoa antissocial. 

 Clara parecia à pessoa menos indicada para isso naquela casa, talvez a menos indicada do mundo, além de ser a mais irresponsável do mundo, Clara não estava nem aí com os outros, ou pelo menos não o suficiente para leva-los a sério. Por outro lado ela tinha uma característica que levou Maira a fazer aquele pedido, a simpatia. Não existia um ser que rastejasse no planeta que fosse capaz de negar a simpatia de Clara, que transformava sua irresponsabilidade e desapego em características fundamentais para fazer novas amizades.

Ao voltar para a sala, Clara tinha apenas um objetivo, conseguir entreter Selene, ou quem sabe seduzir Selene, os dois objetivos julgado fácil por ela, mas que o tempo demonstraria ser uma missão ingrata. 

 Com as pernas juntas, Selene continuava sentada de forma bem encolhida na sala, um pouco inclinada para a mesa de centro, onde estavam sua lata de cerveja e o cinzeiro, enquanto mantinha o seu braço deslocado no alto, segurando em sua mão direita um cigarro Marlboro Gold, quando Clara sentou-se a seu lado.

“Controle de solo para Major Tom”, disse Clara a Selene, traduzindo a primeira frase da música Space Oddity, de David Bowie, à camiseta de Selene e com um sorriso malicioso, uma de suas armas para tentar cativar e tentar puxar assunto. 

 A abordagem inesperada e criativa de Clara chamou a atenção de Selene que voltou seus olhos para Clara e abriu um sorriso sem graça. Mas não abriu seu coração à simpatia da única pessoa que lhe fazia companhia naquela sala. 
Existe uma qualidade em Clara que não seja dúbia, a sua lealdade às pessoas, no caso a Maira e a sua promessa feita a ela, isso era a sua arma para combater a indiferença disfarçada de Selene que assim como a de ‘Major Tom’ com o Controle de Solo (na mesma música que ela utilizou) não a assustava ou mudava os seus planos de ser amiga de Selene. 

 Com otimismo naturalmente alcoolizado de Clara mais uma vez investiu sua simpatia inconsequente contra a marra e antipatia aparente de Selene com uma metralhadora de perguntas miradas com por seu sorriso debochado e sua curiosidade frenética de saber de tudo de forma imediata: 
-Me fale mais sobre você, como é a sua vida na Universidade? Como são as pessoas lá? Como é você por debaixo dessa cara fechada? Duvido que seu rosto seja sempre assim!
 Vendo aquela cena de longe, Maira enxergava a indiferença e frieza no que tinha exposto Clara. Não havia passado por sua cabeça que o tempo havia mudado tanto Selene, ou melhor, seu coração, de forma que a tornasse uma pedra de gelo ao ter contato com o desconhecido ou que ela fechasse a porta na cara de quem não despertasse seu interesse logo de imediato. 

 Enquanto Maira se omitia, observava de longe Clara, que saía de cabeça baixa, cansada de ser ignorada e irritada pelo que ela julgava nariz empinado de Selene. Para Clara, Selene achou que sua aproximação tinha segundas intenções, o que não estava errado, a impressão que Clara ficou foi que ela tinha um ego inflado. 
Enquanto as pessoas que estavam na casa começavam a duvidar se a companhia de Selene seria uma boa ideia, ninguém sabia qual era a melhor forma de dizer a Maira de que sua amiga já não mais bem vinda entre eles e preferiam seguir os planos traçados para o sábado à noite. O destino? A festa!

 A festa de um tal de Enrico, um sujeito que não fazia a mínima diferença para ninguém naquela casa, muito menos para a maioria das pessoas que iriam naquela festa. O importante era que a noite estava chegando e que a vontade de encher a cara estava batendo na porta da consciência de 9 a cada 10 pessoas que sabem aproveitar a vida enquanto a insanidade permite. 

 Já se aproximava das 19h30, quando a trupe resolveu seguir seu caminho noite adentro os carros já estavam a postos e, curiosamente, a até então contestada Selene fazia companhia a Clara, no carro de Clara, algo difícil de se imaginar depois de tudo. Três carros com 12 pessoas partiram para a festa e em menos de 5 minutos chegaram ao local e lá estavam pouco menos de 70 chapados, todos felizes e aproveitando o fato de simplesmente o álcool correr por suas veias em mais uma noite fria de outono. 

 Entre eles estava Ricardo, acompanhado por sua então quase namorada, Janaína. Ricardo formava com Janaína, uma jovem linda, loira, do corpo moldado por belas curvas que terminavam nos mais belos montes daquela festa, o primeiro caminho de suas curvas terminavam em seios, que não se encaixavam nem entre os pequenos e nem entre os grandes, mas sim entre os perfeitos, o segundo descia pela sua cintura subindo por seus culotes como se fosse o pé de uma montanha, uma combinação explosiva, e os dois começaram a se estranhar na festa, algo que não era novidade, afinal isso sempre ocorria em todas as festas, a ponto de chegarem às vias de fato na frente de todos. 

 Ricardo voltava seu olhar para um grupo que se encontrava do outro lado da festa, onde estava Selene, mais uma vez sem demonstrar alguma emoção. A cada gole ou trago, ela era o alvo dos olhares não tão bem intencionados de Ricardo. O jeito estranho, impulsivo e possessivo de Ricardo não dava espaço para ele ver que era observado, observado por Janaína, que percebia os olhares lançados em direção à outra e, irritada, o puxa pelo braço e diz:

-Eu estou aqui se você não estiver vendo, daqui a pouco eu vou fazer questão de ser esquecida por você e ser feliz, até porque não faltam homens aqui dispostos a fazer isso comigo hoje. 

 Esse foi o start para Ricardo mostrar seu lado mais passional e se irritar com a possibilidade de perdê-la naquela noite e isso era potencializado quando ele pensava na possibilidade de não poder possuir a outra bela moça do outro lado da festa. Incapaz de alinhar a lógica ao raciocínio Ricardo fez o que normalmente faz deu um empurrão em Janaína e gritou gesticulando muito com os braços “Cala essa sua boca, caralho! Você não entende nada. Você não pode fazer isso comigo, não pode estragar a minha noite. A porra da minha noite.”. E saiu desorientado. 

 Os passos que começaram desorientados ganharam horizonte quando Ricardo viu a luz da lua brilhar nos cabelos negros de Selene, que após buscar outra cerveja estava voltando. “Qual o seu nome linda?” abordou Ricardo de forma invasiva e surpreendendo Selene, que de olhos arregalados, não acreditava naquela situação surreal que ela estava a passar. Não sabendo muito como reagir, ela apenas respondeu a ele e lhe deu as costas. Ricardo não estava disposto a desistir e a segurou pelo braço, puxando-a para seu corpo, e como se a possuísse olhou-a de cima a baixo, parando os olhos na região dos seios. Eles eram grandes e fartos e chamavam a atenção, principalmente pela camiseta gola em V que ela usava. 

 A situação ficava cada vez mais surreal, enquanto Ricardo a olhava comendo com os olhos e imaginando apenas como seria o gosto de possui-la, Selene, fica enojada com a atitude do rapaz, e Ricardo percebendo a repudia dela tentou mudar a situação, mas só a piorou, para coroar sua atitude machista fez vários comentários machistas como uma metralhadora machista falando “hey gata, vem aqui”, como se fosse o dono dela e completando:
-Você não quer se enturmar a tanta gente por aqui, você poderia conhecer tudo comigo.

 “Não”, respondeu Selene, tirando as mãos imundas e sedentas de prazer dele de cima seu corpo, demonstrando nojo pela forma vulgar com que Ricardo agia e completou sua resposta dizendo “eu já estou enturmada com eles aqui” e depois voltou para o seu lugar, enquanto quem estava a sua volta virava o rosto para rir da situação ridícula criada por Ricardo. 

 Ricardo por outro lado nem se incomodava e não estava nem um pouco envergonhado de sua atitude e da forma que ela havia agido, ele se considerava um caçador e como tal via Selene como caça e por esse motivo ele não desistiria tão cedo ou naquela noite.
Enquanto tudo isso acontecia, Clara ignorava a cena que nasceu para ser ignorada, e sentia que algo lhe faltava naquele local, como era de costume em uma pessoa que tinha tanto para contestar, mas não sabia por onde começar, ela não sabia, não sábia se isso era pelo ocorrido entre ela e Selene à tarde, ou por mais uma noite igual a todas as outras, com as mesmas pessoas, mesmas bebidas, mesmo sexo e a mesma solidão, Clara era uma loba solitária que sempre vivia dura e por isso transformava a cerveja em seu uísque, sempre com uma lata na mão, ela sempre dizia se sentir menos só quando encontrava meu espirito liberto do marasmo (o mesmo que habitava aquela festa) depois de um pileque, ela gostava de como eu contestava tudo e todos sobreo, como se todas as dúvidas do mundo habitassem a minha caixa craniana, mas que cagava para tudo bêbado, dizia que adorava a minha forma de alinhar o meu senso de humor a uma opinião mais ácida, com pretensões de mudar o mundo, ou pelo menos lutar pela honra de perder a batalha. 

 Por mais que eu queria acreditar que esse fosse o motivo para Clara jogar tudo para o alto e ir atrás de mim naquela noite, eu a conhecia tempo suficiente para saber que não precisavam de motivos para Clara jogar tudo para o alto. Se Juluis foi o meu elo com a turma, a razão da minha permanência nela era atendia pelo nome de ‘Clara’, nos conhecemos na Faculdade de Comunicação Artes e Design- quando ambos cursávamos jornalismo, ela foi o que podemos chamar amor à primeira vista, ou uma visão menos romântica, mas não menos importante, ela não era a garota mais afeminada da faculdade, muito menos a do nosso ciclo de amigos, mas existia uma neblina na íris negra de seus olhos que deixava seu olhar turvo e misterioso que na época era disfarçado por uma cara de poucos amigos e um mau humor ácido (a última parte a acompanha até os das atuais) a forma como ela cagava pelas coisas ‘maiores’ da vida e valorizava os detalhes desapercebidos. 

 “Fica pronto na frente da casa que estou passando aí para te pegar”, era a mensagem enviada de Clara para mim pelo celular, daí para frente foi o tempo de secar mais um copo de cerveja e sem enxugar a baba Clara saiu feito uma débil de olhos arregalados e sorriso no rosto, crendo que tinha uma missão, a de tornar aquela festa melhor, e em sua forma estranha de pensar ela acreditava que minha presença seria fundamental para isso. 

 Mal acabará de escovar os dentes e já conseguia ouvir os pneus do carro de Clara cantar ao entrar na rua, da mensagem até ao abrir a porta do carro passaram-se menos de 15 minutos e lá estava eu, o cara mais esquisito do que as pessoas que estavam festa, de média estatura, barba, cabelo sem corte definido, comportamento inconstante, ora tímido, ora desinibido. Conseguia ser introvertido sem que aquilo me impedisse de ser transparente no que sentia ou achava. A mesma falta de medo tinha de viver era o medo que eu tinha de magoar ou ofender o próximo e era dessa forma, usando o meu maior talento, como o meu pior, perdendo dinheiro da mesma forma que muitos o ganhavam, escrevendo. Por mais que me dedicasse a tal oficio, apenas refletia no papel o meu ‘eu’, uma metamorfose querendo virar romance. 

 Eu não tinha bebido, mas tudo parecia girar naquele exato momento, era o planeta que girava em torno do sol e em torno de si, enquanto a lua girava em volta da terra e noite girava brincando com o dia de se esconder, enquanto o dia a procurava no oriente ela estava a rir de sua cara no ocidente, os pneus dos carros do mundo todo estavam a girar sobre o asfalto, assim como as rodas estavam a girar no interior dos pneus, sentia uma sensação de que várias borboletas voassem e se debatessem com toda a velocidade dentro do meu estômago, talvez aquilo pudesse ser um pressagio do que estaria por vir. 

 Do fechar a porta de casa até o abrir das portas na festa foram apenas 15 minutos. O sertanejo universitário inundava o local da festa. Jovens casais ao monte deixavam o local quase vazio para aproveitar a escuridão de qualquer canto, para que pudessem transar sem serem incomodados por ninguém, nem pelo sertanejo, nem pelo preservativo. 

 Enquanto tudo aquilo passava pelas minhas pupilas eu parava para pensar o porquê aquela porra de música estava a tocar se as pessoas que haviam escolhido isso estavam cagando para a música, quando de longe Clara avistou uma movimentação diferente debaixo de uma árvore baixa, chegando um pouco mais perto reparou que Julius usando a rua como seu centro de treinamento para fazer seu terceiro filho e aquecendo o começo de sua noite com uma menina qualquer e esperando que o álcool tomasse logo a mente das pessoas que estavam ali para que ele pudesse sair dos amassos preliminares para o sexo que ele tanto esperava naquele sábado, na verdade o que ele desejava mesmo era trepar com qualquer ser humano que possuísse uma vagina com um único intuito, gozar.

 Finalmente, era chegada a hora de Clara voltar a se juntar a seu grupo e me levar junto com ela. Eu cumprimentava a todos na roda, desde Leandro, um velho conhecido meu e primeiro amor de Clara, que também estava a beber com o grupo desde a tarde, e tinha feitos incríveis em sua bagagem para contar e os contava, como a vez em que fez o percurso a pé da trilha Inca, uma estrada pavimentada com pedras que atravessa algumas montanhas da Cordilheira dos Andes até Machu Picchu, mas calçando um par de All Star creme e passando com eles desde as pedras, a terra, água e até neve. É claro que seus pés resistiram a tudo isso, mas não intactos, as bolhas pareciam fazer parte deles e parte de seu pé ficou em carne viva. 

 Até que de repente um olhar, contornado com um lápis, que ornava com a íris negra que me penetrava sem pedir licença ou bater na porta indo em direção ao que eu tinha de mais intimo. A dona daqueles olhos diretos era Selene, a única pessoa eu não conhecia na roda e a única que me cativava de relance com um olhar. Ao me ver entrar pelo portão da festa acompanhado por clara Selene puxou Maira de canto: 
-Nossa! Quem é esse cara?
Continua...

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