Selene parte 2



Finalmente, era chegada a hora de Clara voltar a se juntar a seu grupo e me levar junto com ela. Eu cumprimentava a todos na roda, desde Leandro, um velho conhecido meu e primeiro amor de Clara, que também estava a beber com o grupo desde a tarde, e tinha feitos incríveis em sua bagagem para contar e os contava, como a vez em que fez o percurso a pé da trilha Inca, uma estrada pavimentada com pedras que atravessa algumas montanhas da Cordilheira dos Andes até Machu Picchu, mas calçando um par de All Star creme e passando com eles desde as pedras, a terra, água e até neve. É claro que seus pés resistiram a tudo isso, mas não intactos, as bolhas pareciam fazer parte deles e parte de seu pé ficou em carne viva. 


Até que de repente um olhar, contornado com um lápis, que ornava com a íris negra que me penetrava sem pedir licença ou bater na porta indo em direção ao que eu tinha de mais intimo. A dona daqueles olhos diretos era Selene, a única pessoa eu não conhecia na roda e a única que me cativava de relance com um olhar. Ao me ver entrar pelo portão da festa acompanhado por clara Selene puxou Maira de canto:


-Nossa! Quem é esse cara?


Naquele momento a duvida começou a habitar os pensamentos de Maira, o tempo que parecia ter apagado o tato e o bom relacionamento entre ela e Selene, a ponto dela não saber o que realmente passava pela cabeça bêbada de Selene com aquela pergunta, será que ela me trataria como tratou Clara? Mas mais uma vez na dúvida, Maira mais uma vez preferiu não sair de seu mundo superficial e não incomodar com qual seria a atitude de Selene, ela apenas explicou quem eu era e depois se fodeu para o que poderia acontecer dali pra frente.


Após essa explicação, Maira tratou de procurar um lugar onde seus olhos não pudessem me ver ou ver Selene poderia fazer comigo e levou Clara junto para evitar maiores problemas. Enquanto isso, eu fui preparar meu drink de verão (vodca com alguma coisa) e logo voltei à roda, sem saber como puxar assunto com o restante e ofereci bebida para quem aparecesse a minha frente, eis que era chegada à hora de oferecer para Selene.


Lá estava eu de frente com aquela garota com o cabelo que refletia a luz da lua, uma verdadeira delícia de um pouco mais de 1,60m, seios fartos e aquele olhar que me desconcertava e aos trancos e barrancos falei bem baixinho a Selene “Servida?”, ela não havia entendido direito o que eu havia lhe falado por causa do tom baixo da minha voz, se aproximou pedindo para repetir o que eu havia falado. Em seguida ainda desconcertado repeti em um tom mais alto e fiz um sinal mostrando o copo.


“Não obrigada, vou ficar só na cerveja hoje”, respondeu Selene, erguendo sua lata para mostrá-la a mim e abrindo um sorriso insinuante e diabólico mostrando que podia deixar de ser aquela menina mimada e infantil sábado para ser a deusa das trevas, que me seduzia com qualquer gesto que fazia, ou com qualquer movimento que sua em sua camisa de gola V transformando seus seios em dois imãs gigantes que atraiam os meus olhos para aquele decote. O álcool finalmente começava a fazer o seu papel naquela noite, socializando Selene, ou pelo menos tirando-a da solidão de seu mundo e mostrar que havia vida a sua volta. 


A boca e o papo mole como “Estou evitando beber destilado, porque quando eu o misturo com meu tarja preta (remédio) fico meio louca” eram mais indícios do poder do álcool naquela mente perturbada e de corpo escultural que o tentar ficar mais próxima e intima do meu corpo e conversar mais de perto e quase caiu do banco em que estava sentada. 


Ao evitar tal cena ridícula notei que meu inconsciente pretendia me levar onde a minha consciência não permitia e sem perceber minha mão segurava fortemente a coxa de Selene e que me levava a querer cada vez mais, era como se a minha mão se tornasse mais uma estrela a brincar no imenso tapete de estrelas que o céu que antes era negro agora era cítrico das cores de sua calça, mas os puderes e minha caretice impediram de seguir em frente no meu tapete de estrelas e colocasse os pés no chão, automaticamente tirei minha mão de sua coxa  um pouco constrangido com aquela cena, constrangido comigo mesmo.


Seria ironia do destino, destino esse desacreditado por mim, ou apenas ironia momentânea? A mesma garota que havia esbanjado hostilidade e ferradura a todos durante parte daquele sábado havia se transformado em outra pessoa, sendo simpática, mesmo depois de perceber minha mão em sua coxa, manteve aquele sorriso diabólico e sem legendas combinado com um olhar que penetrava minhas pupilas e invadia a minha mente. 


O mesmo olhar que não me dava à certeza de nada e que me invadia era o que transformava nossa conversa em um cinema mudo, onde todas as palavras, ideias, mãos, gestos, pareciam não possuir vida, era apenas a natureza morta de dois corpos envolvidos pelas místicas de dois pensamentos, sentimentos e olhares.


Enquanto as casas vizinhas começavam a apagar os televisores, após verem seus queridos ancoras fazerem apologias a algum tipo de conduta aprovada por quem nascia para oprimir e tinha medo de ser oprimido, era chegada a hora de Clara voltar para a festa e me encontrar com Selene. Ela parecia não entender o que seus olhos acabavam de ver, afinal que diabos eu estava fazendo? O porquê eu estava cada vez mais envolvido com Selene? Por que estávamos cada vez mais isolados mesmo estando dentro de uma festa? Quais eram as intenções de Selene? Por que dela ser legal agora? Porque nada naquele local nos interessava a não ser por nós mesmos?


Clara notou que o tempo que havia passado sob a luz da lua com Maira, do lado de fora da festa serviu para unir Selene e eu e a cada minuto que passava aquilo se transformava em uma fortaleza quase impenetrável, fato que incomodou à primeira vista Clara que, além de nos ver juntos, viu que quase todos de nossa roda dispersarem, o que, para ela, ajudou na aproximação entre Selene e eu.

O ciúme era evidente na face de Clara e percorria cada vaso sanguíneo de seu corpo fazendo o seu sangue subir a cabeça. Não existia nenhum sentimento especial dela por mim a não ser a amizade, e algumas lembranças de algumas transas, nenhuma delas tinha importância para ela e também não tinha para mim, Clara não estava disposta a entrar em nenhuma disputa com Selene, mas após passar parte do dia com Selene ela perceberá que existiam muito mais diferenças entre elas do que apenas o mal entendido na parte da tarde, Clara não confiava em Selene e nem em suas intenções comigo e nem em minhas intenções com Selene, no fundo ela sabia que Selene tinha potencial para ser uma encrenca para nós e nossa amizade que ao mesmo tempo que era forte,  era sensível e tão frágil como uma casca de ovo. 


A amizade também era o motivo pelo qual Clara não me deixava crescer com meus próprios erros e sempre me tirava da linha de tiro,  me deixava ileso aos chumbos de outras noites, mas Selene poderia ser a bala perdida que me acertaria em cheio, e sem ter confiança em Selene e não saber no que tudo aquilo poderia dar, Clara veio como um vulto por trás de mim enquanto eu prestava atenção no que Selene e falou de forma suave e bem humorada no meu ouvido para que ninguém percebesse suas intenções:


“Não vá furar meu olho, seu desgraçado!” e recuou rindo e com um sorriso no canto da boca sabendo que aquelas palavras poderiam fazer na minha alcoolizada mente, ela havia plantado a semente do desconforto na terra fértil em minha consciência e isso para ela já era motivo de sobra para tirar aquele sorriso sagaz e dar a certeza de que ela havia marcado presença. 


Aquele era mais do que uma provocação a Selene, Clara parecia estar declarando guerra a Selene da mesma forma que Selene fez com ela na parte da tarde, a antipatia entre as duas partes era evidente, não trocaram uma palavra durante toda a festa até então, se comunicavam apenas por olhares nada amistosos. Era como se eu estivesse no exato ponto onde dois rios se encontram e me afogasse no meio de duas correntezas que se colidiam.


Por outro lado não era de Clara se envolver em qualquer tipo de relacionamento que não fosse à pessoa que estivesse com ela, mas principalmente ela não disputava nada com ninguém, era preferível viver a arte de perder e ser feliz ao vencer sem ter amor e decidiu retirar a ganancia de vencer em nome de algo maior, o amor por mim. “Só não quero que você se machuque”, disse Clara antes de desaparecer entre as pessoas na festa.


“O que ela queria?”, me perguntou Selene com uma voz carregada de cobrança de quem mesmo bêbada tinha a certeza de que Clara tinha mais intenções que 5 minutos de fama em nosso infinito particular


Tentei disfarçar e de forma mais dissimulada e me fiz de desentendido com a intenção de jogar a merda para debaixo do tapete a cena que acabara, enquanto Clara  tinha evaporado no meio de tantas pessoas parecendo estar cagando e andando para o mundo, ou pelo menos não tendo saco o suficiente para levar o mundo sério, ela voltará a para beber com o resto do grupo enquanto Selene questionava em mais se Clara queria que eu ficasse com Maira, aquela era mais uma cena ridícula do qual Selene protagonizava, não deixando dúvidas do quanto álcool corria em suas veias.


Após negar toda aquela besteira com a inocência de ter sido absolvido pelo nível alcoólico de Selene, a harmonia voltara ao para nós e nosso mundo particular, composto de muito álcool e hormônios reprimidos por algum pudor que poderia facilmente ser esquecido após mais uns goles. Trago a trago tornava mais fácil, confortável e gostoso me ocupar apenas os olhos e os olhares de Selene, com meus ouvidos sendo invadido pela voz dela e sua boca fazendo gestos e movimentos que mexiam com o meu libido, deixando às vezes o dialogo em segundo lugar, para que a sensualidade dos gestos de sua boca e seios fossem os protagonistas de meus olhos. 


Um trago atrás do outro confundia a matemática de copos nosso e aumentava mais e mais a nossa afinidade, parecia ficar cada vez mais difícil alguém conseguir invadir a bolha que nos envolvia. Era difícil entender o que estava acontecendo entre nós, parecia que aquela primeira troca de olhares se tornou a união perfeita para aquela noite, mas havia gente disposta a estragar, um deles e o principal era Ricardo, que estava do outro lado da festa com Janaína. Os dois davam uma amostra de que seriam mais uma vez o casal Sid & Nancy da noite, a briga da vez foi porque a mente movida a demência de Ricardo havia ignorado a presença de Janaína mais uma vez para comer Selene com os olhos. 


Parecia não existir motivos ou forças que afastasse Ricardo de seus hormônios, nem mesmo o seu relacionamento com Janaína poderia deter o tesão que ele sentia por Selene e seus belos  seios que arrastava seu olhar como um imã naquela noite e o fato de não ser correspondido só excitava mais aquela pobre mente perturbada  e aumentava sua vontade de possui-la naquela noite.  


O seu desafio era maior, para realizar o desejo de seus hormônios em  comer Selene,  ele teria que quebrar o elo existente entre eu e ela que formou uma áurea de intimidade entre nós, algo que a mente débil de Ricardo compreendia, mas sua natureza animal não, ou se entendia fazia questão de nega-la, e fazendo parte de sua natureza xucra o que não era aceito ou compreendido era motivo de incomodo para ele, foi nesse momento que se deu conta de que eu o incomodava desde que pisei na festa até aquele exato momento.


Querendo colocar um fim naquela aflição que sentia por estar longe dos seios de Selene e ao mesmo tempo querendo colocar a raiva que ele estava sentindo por mim pra fora, Ricardo comia Selene com os olhos assim como triturava cada osso de meu corpo apenas com o seu olhar. No fundo ele sábia o que tinha que fazer, acabar com o seu sofrimento ou pelo menos naquilo que não o agradava.

Como se estivesse em uma floresta, o caçador Ricardo inicia a caçada da forma errada, era como se a cada passo dado floresta adentro o barulho de seus pés espantasse suas vitimas, e dessa forma ele invadiu o nosso mundo sem cêrimonia e, sentando-se ao meu lado, inclinado a sua cabeça para perto de nós, apenas para ter certeza que havia sido notado começou a jogar reclamações ao vento. “Meu ela não podia ter feito isso comigo, não podia mesmo, ela não tem a mínima noção de como eu me sinto”, falava Ricardo meio gritando, meio chorando, meio que sem noção, balançando a cabeça e vendo nossos olhares de incompreensão aquela cena ridícula que ele estava a fazer. 


Apesar de parecer um retardado bêbado Ricardo sábia a péssima impressão que sua amadora interpretação havia deixado em nós, e seguindo a risca o manual do grande canalha que ele era tratou de assumir o papel de vítima e se eximir dá culpa de ser ridículo: 


“Por que vocês estão me olhando assim? Ah, tá. Entendi. Eu estou atrapalhando vocês, me desculpem não foi minha intenção” e saiu batendo o pé enquanto mostrando que o cinismo era a principal característica daquele demente disfarçado de Dom Juan do manicômio. Ricardo pretendia voltar e voltaria mais tarde como uma última tentativa de ter Selene naquela noite.


O álcool passou a ser o nosso combustível para ativar a nossa criatividade para não nos deixar cair na mesmice, entre uns tragos, sorrisos e risadas, ele passou a ter outro papel e mais cruel, o de interrogador, transformando o nosso mundo em uma grande interrogatório onde as verdades que se escondiam atrás de nossos olhares saiam uma a uma de nossas bocas, o primeiro delator fui eu que deixei escapar o que estava em seus pensamentos até aquele momento:


-Eu acho que o planeta é tão grande que deveria existir no mínimo 6 pessoas iguais a você. Acredito que o mundo seria melhor com isso, ou pelo menos eu poderia trombar com uma dessas pessoas que parecem você e me sentir um pouco como eu me sinto agora. 


“Eu não gostaria que houvesse outras pessoas iguais a mim nem neste mundo nem em outro. E se existissem,  eu não iria querer que você as conhecesse, você só teria a mim, serei a única Selene na sua vida” me dizia Selene enquanto passava a mão em minha barba forma carinhosa.


Mesmo atordoada pela suicida mistura de tarja preta com a cerveja e o que acabará de ouvir da minha boca, Selene não se sentia invadida e nem forçada a ouvir as besteiras que eu dizia ao pé de seu ouvido, pelo contrário, ela escutava tudo com vontade e seu olhar sedutor e sorriso diabólico me convidavam para entrar onde nenhum ser humano naquele local, exceto Maira, havia pisado, tocado e deixado a sua saliva. Sentindo-me quase um desbravador, exceto por um detalhe, não era eu que a desbravava e sim ela que me conduzia pela mão pelos caminhos que que estivesse à vontade para me levar.


O brilho vindo do sorriso diabólico, disfarçado de sem graça era mais um convite que eu recebia para entrar enquanto o seu olhar penetrava no fundo de minha íris hipnotizando com aquelas duas pedras negras e mágicas, que brilhavam sobre a luz do luar daquela noite e me deixava vulnerável as suas vontades. 


Nossos olhares pareciam finalmente terem se casado naquele momento em que nossos olhos se viam atraídos um pelo outro e que o silêncio imperava entre nós, em transe, olhando um para o outro como se pudéssemos habitar um dentro do outro. As mãos de Selene continuavam a deslizar pela minha barba e nossos rostos estavam cada vez mais próximos um do outro e parecia que finalmente os lábios de Selene e encontrariam aos meus, quando dois rapazes que empunhavam em suas mãos uma garrafa de rum e outra de vodca enquanto em quanto o outro segurava uma de groselha e os dois saiam pela festa embebedando a todos com essa mistura que tinha gosto de xarope e efeito de entorpecente, nos abordaram, sem se importar com o que estava acontecendo naquele exato momento. 


Aqueles animais alucinados pela mistura de hormônio com álcool não ligavam para o que acontecia a sua volta e sim que as pessoas estavam ou não suficiente bêbadas para se perderem em uma romana selva de dor e transarem umas com as outras no final da noite.  


Aquela mistura de merda com porra nenhuma, das doses de rum, vodca e groselha, desceram queimando nossas gargantas sem que ao menos nós notássemos que aqueles dementes haviam invadido nosso mundo e jogado tudo que estávamos passando para o ar.  O momento perdido e aquele gosto maldito em minha boca me incomodaram, perguntei a Selene se ela queria mais uma cerveja e fui fazer mais um drink para tirar aquele gosto de merda da boca. 


Ao ir de encontro com a bebida vi Ricardo aproveitar de minha ausência e aproveitou e com seu instinto de abutre esperou apenas a oportunidade para dar aquela que seria sua última e definitiva investida em Selene. Dessa vez, ele estava disposto a agir de forma rápida, dentro de sua mente sem lógica e fora de orbita Ricardo tinha a certeza de que só precisava estar lá, no mesmo lugar que eu estava e combinando a luz da lua, o frio da noite, seu olhar, lábios e a e porre que ela tinha tomado durante todo aquele sábado era a combinação perfeita para que enfim ele a conseguisse beijar.

Os lábios que quase se encontraram os meus desejavam passar longe dos de Ricardo e assim que Selene notou Ricardo ao seu lado mais uma vez mostrou todo o poder que o álcool tinha sobre a sua pessoa e deixou escapar de forma espontânea as palavras que entrariam pelos ouvidos dele como se fosse uma faca entrasse e cortasse de cima para baixo seu orgulho:


-De novo você por aqui!


Foram poucas palavras que escaparam de Selene, mas elas tiveram um efeito devastador na mente de Ricardo, ou no que restava dela, principalmente pelo desprezo nelas embutida, expondo Ricardo a algo que ele não havia passado ainda em sua vida. A partir daquele momento a noite passou a custar caro para Ricardo. 


Mil coisas passavam por sua mente débil, mas nenhuma mudava o fato dele viver uma ilusão solitária e só se dar conta de que realmente ele havia se tornado uma piada depois do acontecido, escorraçado como um cachorro de rua.


A melhor saída encontrada por Ricardo foi o silêncio, silêncio acompanhado da cabeça cabisbaixa, saindo sem olhar para trás, sem sentir arrependimentos, vergonha ou qualquer outra coisa que pudesse acusar sua consciência de novo. 


De longe, pela primeira vez na festa, eu tomei a mesma posição de omissão que Maira tomou horas antes, mas no fundo eu sábia que aquilo era necessário, por meio daquela cena bizarra eu pude ver todos os lados e faces que Selene possuía. 


Mesmo não aprovando a forma que ela agirá naquele exato momento, eu sábia que em seu lugar eu agiria dá mesma forma ou até pior, e no fundo estava sendo apenas mais um filho da puta de um conservador que não nota que os erros e atitudes tomadas sem pensar mostram a capacidade de ser humano, a capacidade de errar e depois viver tempo o suficiente para aprender com o erro. 


Era chagada a hora de finalmente aceitar Selene como ela realmente era. Passei a ver Selene como um típico e clássico personagem de Kerouach, contraditório e apaixonante, capaz de me deixar perplexo ao ler cada movimento dela ou causar frisson a cada toque dela em minha pele.

Ao voltar para o meu destino ou o meu acaso naquela noite, o de estar ao lado de Selene, só que agora com uma diferença, o lugar habitado apenas por nós dois estava lotado após a cena com Ricardo e quando eu cheguei para me sentar Selene me puxou para fora da roda, ela queria para dar uma volta.


As pernas que andavam sem direção, cruzando uma com a outra, em ruas que se distanciavam cada vez mais da festa e nos aproximavam cada vez mais de nossa verdadeira essência, era como se cada passo que nós déssemos era um passo mais próximo de nossas verdadeiras faces, bêbadas, loucas e sedentas uma pela outra. Após uma noite toda de pileque e encrencas, era chegada a hora que ensaiámos ao longo de toda a festa e não tivermos a oportunidade ou coragem suficiente para desenrolar, era a hora de parar de adiar o que parecia inevitável e pôr um ponto final naquela história.

Em meio às risadas e o clima colorido, Selene não aguentou e veio a tropeçar quando foi tentar se sentar na calçada, eu tentei impedir aquilo, mas acabei sendo puxado por ela e nós dois rolamos pela calçada e terminamos deitados na calçada imunda e com as poeiras das digitais de cada calçado que havia passado  naqueles blocos. 


Aquela situação poderia ser vexatória para alguns, mas não ligávamos, tanto Selene quanto eu havíamos nos transformado em almas gêmeas que sujavam seus cabelos limpos no chão e tínhamos a certeza de que não existia um grão daquela sujeira toda que fosse maior ou mais belo do que as estrelas que brilhavam no céu que naquele momento invadiam os nossos  olhares e mostravam que o infinito podia vir de dentro de cada um, transformando aquele instante em eterno. 


Não conseguíamos mais distinguir o momento certo disso acontecer, as pernas e o raciocínio já não nos obedeciam e tudo começou a ficar mais distante. Nos guiamos apenas pelo instinto, pelas luzes das estrelas e do luar, Selene voltou a passar sua mão em minha barba enquanto meus olhos  se voltaram para os dela, refletindo a vontade de ficar, exteriorizada em um beijo.


Nossos olhos finalmente se fecharam, os lábios uniram, nossas línguas sedentas à procura da fonte de toda aquela vontade que saía do interior e se exteriorizava em nossos corpos e as mãos, sim as mãos, eram convidadas de forma muito insinuante a percorrer cada canto do corpo um do outro, e foram assim nos primeiros beijos, naqueles primeiros minutos. Com o tempo fluindo foi diminuindo a intensidade, o tato ia se dissolvendo a cada andar do ponteiro do relógio e a boca perdendo o sabor e o movimento como se nós dois estivessem anestesiados. 


Da mesma forma inesperada como o encontro, acabamos a noite dormindo no chão frio e imundo, nos braços um do outro. A felicidade estampadas em nossas faces enquanto dormíamos transforma toda aquela situação apenas em mero detalhe, pois já havíamos conseguido o que aprendemos com as estrelas, uma noite infinita. 


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