O anjo


  Pouso a caneta sobre o papel. As letras dançantes e fora de eixo parecem desafiar meus olhos a acompanhá-las. Aperto as têmporas, já sentindo o amargo em meus lábios. Se passara mais uma noite, mais umas intensas horas sem dormir, rabiscando o velho caderno.
 O que escrevo? Você deveria saber, já que se mantém vivo em meus sonhos, acorrentando-me às nossas velhas lembranças... Me diga, qual delas mais lhe agrada? 
 Foi a noite em que dançamos na chuva? Ou quando banhavamo-nos em suor e desejo, com o som da desconfortável mesa balançando?
 Cada movimento atingia minha alma, mas essa dor me trazia o Paraíso, nos tornando Dante e Beatriz, com centenas de almas luxuriosas à nossa volta, desejando sentir o aconchego de nossos corpos.
 Nossos dias pareciam suportáveis. Entre carícias e gracejos nos perdíamos, e eu me encontrava em teus pensamentos, projetada como uma musa, esculpida em mármore branco, tecida pela tenebrosa Aracne e invejada por grandes princesas.
 Confesso que gostava de ser vista de tal maneira. Meu ego agradecia, enquanto minha garganta seca pedia por um gole de você...
 Tuas mãos  deixando marcas permanentes por todo o meu corpo, mas sem me ferir; meu único medo nesses dias era apenas de não o ter mais.
 E como dizia um bom amigo: "Pesadelos se realizam, mais do que sonhos".
 Meu pesadelo foi a noite em que me levantei procurando por teu abraço. Você costumava se enroscar a mim, me deixando com a alegria esmagadora de sentir teu respirar. Mas você não estava ali.
 Os lençóis estavam bagunçados, o travesseiro caído ao lado da cama, alguns livros e gavetas fora de contexto e em minhas mãos uma pena...
 Olho desconcertada para o estranho artefato. Uma enorme pena negra, a reluzir sob a pouca luz que entrava pela janela.
 Poderia algum pássaro desajeitado ter depositado ela no quarto? Não... os pássaros não costumavam brincar por ali. Seria isso, a pena de um anjo? Escondido nas sombras, guardando os sonhos da garota... Também não. Não costumava agradar seres deste tipo, e muito menos era atraída por tanta graça e misericórdia.
 O perigo a atraía. E agora, era arrastada para fora do quarto, petrificando ao ver o rastro de móveis espalhados até a cozinha. Qualquer leigo diria que passaram por ali noventa mamutes, mas o odor entregava tudo. Esse cheiro ela conhecia bem e, conforme aspirava, podia sentir o gosto metálico na ponta da língua.
 Com movimentos calculados, pressionou o interruptor, deixando que a luz inundasse o cômodo, enquanto o medo inundava teu olhar. Ele nunca fora tão real, tão palpável, tão próximo e tão impertinente.
 Esticado sobre o chão, jazia seu amado. Suas lamparinas amarelas petrificadas e a boca entreaberta, preparada para implorar por piedade. Os músculos por todo o seu corpo pareciam tensionados, não era apenas um rigor mortis, era o medo real. Tuas mãos débilmente pousadas sobre o peito, numa tentativa falha de agarrar a adaga antes do golpe.
 E ao teu lado, mutiladas, graciosas asas negras, com plumas acinzentadas a repousar em teu colo. Os cachos pendiam sobre as bochechas ainda rosadas, a pele cor de jambo agora fria e sem brilho. O sangue que antes fervia entre os dois agora se petrificava sobre o chão frio e sujo...

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