A menina que via os mortos


"Eu vejo mortos por todo canto".
A jovem cuspiu estas palavras,
Em resposta, ouviram-se risos e uma mãe em prantos.

"Não minta tão descaradamente!"
Esbravejou o pai, indeciso
Se questionando se era mesmo a filha alguma vidente...

"Pois vejo!" - insistiu. Sabendo que um dia veriam como ela.
Não precisavam de grandes templos.
Para ver os defuntos, bastava uma espiada na janela...

Foi até a vidraça, meio que de esguelha,
E, passados alguns segundos,
Lá vinha um cadáver com um sorriso de orelha a orelha.

"Bom dia!" - acenou o morto para mim.
Enquanto eu analisava tuas roupas finas,
E os caríssimos mocassins.

Foi-se andando num rangido metálico,
Com o sorriso congelado,
De algum esquiador antártico.

O pai da menina batia os pés, insatisfeito.
Enquanto ela de novo anunciava:
"Lá vem outra falecida, tapando o buraco no peito"...

Todos se amontoaram, curiosos.
Vendo uma jovem moça
Apertando o peito, temendo mais amores indecorosos...

Tua pele reluzia num moreno dourado,
Tuas mãos desesperadas por estancar,
Todo o amor desperdiçado...

Foi-se embora em busca de um novo parceiro.
Qualquer um com pena,
Arrogância e um sorriso faceiro.

Um pequeno morto mal podia ser visto agora.
Com as mãos juntas em frente ao corpo,
E as costelas ameaçando pular fora.

Os olhos enormes, com sede...
Refletindo um pai,
Que voltava com uns poucos crustáceos em sua rede.

Todos em pranto buscavam o olhar da pequena...
Alguns indiferentes,
Outros poucos hipócritas demonstrando toda a sua pena...

A menina não mentia, nem delirava, ainda.
Apenas via como desfalecidos,
Aqueles que não tinham o calor e a chama da vida...

Mortos andando sem rumo pela cidade.
E a dúvida plantada na mente de todos:
"O que é estar vivo, de verdade?" 

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