A dor está quieta... Permanece aqui, mas silenciada por hora. Sem o rotineiro estrondo que entorpece os sentidos e turva a visão. A dor está calada, mas não se foi, ainda é mortal... É como um guepardo que espreita um cervo. E quando fizer-se o mínimo ruído, já não haverá mais nada além da agonia...
  Aproveito esses momentos de quietude, em que posso recobrar o fôlego, já aguardando o próximo ataque, a próxima cacofonia berrante da dor... Onde têm-se como atração principal o passado e convidada de honra a amargura.
  A incerteza corrompe e destrói cada célula, deixando-me com a dúvida de que já não estou tão viva quanto antes. "Mas você respira" - muitos dirão. O ar que escapa de meus pulmões é só mais um lembrete da pressão sobre eles, os batimentos acelerados soam como suas passadas firmes e carregadas de crueldade. O vento uivando na janela é como seu assovio sádico, sempre anunciando a chegada das noites em claro. E mesmo após o aviso, eu permanecia ali, como uma lebre ferida aguardando seu carcereiro, que faz uma prece silenciosa a qualquer Deus que o ouça... Mas não há ninguém lá fora... 

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