Suas chamas purificam?

A bruxa fechou os olhos encharcados de lágrimas, deixando que as últimas gotas caíssem estrondosamente sobre as palavras doces de seu amado. A tinta agora tornava-se um amontoado de borrões escuros, já sendo esquecida a caligrafia cuidadosa e a melodia barroca de cada frase do papel.
  Buscava o fôlego necessário para finalizar sua leitura, mesmo com o desejo de que as palavras se mantivessem vivas. Não viriam mais cartas, disso ela sabia, não acordaria entre beijos castos e risos desconcertantes... Não se ouviria mais um sussurro sequer...
  Mais uma vez a amargura fazia-se corredeira por seus olhos. Carregando para longe todas as lembranças... Os olhos que bailaram juntos agora pareciam trôpegos.
  Ela seria mesmo capaz de apaga-lo de suas memórias? Esquecer-se do toque suave que fazia cócegas em cada terminação nervosa, os dedos hábeis brincando com seus cabelos desordenados, a respiração denunciando o desejo, que fez-se palpável, incendiando o olhar. O beijo ansioso, desesperado e maravilhosamente carregado de querer... Não eram apenas dois apaixonados, eram dependentes um do outro, com a Lua para testemunhar a harmonia de seus corpos.
  Ainda debruçada sobre a carta, a bruxa fez um juramento de vingança. Levantou-se calmamente, pegou a adaga que reluzia sobre a cama e amontou-a sob os babados enormes de seu vestido. Bateu a porta ao sair, numa promessa silenciosa de que não voltaria à casa, abandonando ali o que lhe restava de amor...
  Caminhava a passos firmes, sem nenhuma pressa. O vento cortava-lhe os lábios e fazia ranger os dentes, mas ela tremia com seus pensamentos irreconhecíveis. Atravessou o bosque que a escondia do mundo e parou um instante para admirar o local em que se encontrava: de um lado, o caminho escuro, com galhos prontos para estrangular qualquer um que se arrisque no bosque; do outro, casas de madeira com enormes janelas e portas, parecendo sorrir e convidar para se acomodar...
  Levou a mão à sua adaga, num impulso. Sabia que não deveria deixar-se enganar, os falsos sorrisos eram como um candelabro, não se pode chegar perto demais ou acabará como uma mariposa de asas carbonizadas. Recobrou o controle, precisava continuar sua jornada. Andou mais uns poucos metros até que o caminho se iluminasse por tochas que se prendiam às casas, como um aviso do perigo constante que dormia tranquilamente em seu interior. 
  Lembrou-se do fogo, dos gritos de repúdio, da pele macia se tornando um conjunto de células em chamas. Recordou as amarras firmes, as vaias e a humilhação, as súplicas por misericórdia e rezas incompreensíveis em nome de algum deus que satisfazia-se com sua punição. Lembrou-se pela última vez do olhar de seu amado. Os olhos cor de âmbar pareciam apagados ao vislumbrar a bruxa, querendo poder livra-lá daquilo, conforta-lá em seus braços. Mas então ela voltou ao seu objetivo. Arrancou da varanda da maior casa uma tocha, o fogo a instigando à vingança...
 - Não me culpem por sua dor... O fogo irá purificá-los! - repetindo as palavras do padre, observou enquanto deixava cair a tocha, que imediatamente fez uma estrada de chamas até a porta. Com a casa sendo lentamente consumida, a bruxa se virou para partir em busca de sua próxima vingança...

Nenhum comentário