Eles virão...


  Era um dia calmo. A luz que entrava pela pequena fresta da janela parecia acariciar o rosto da bruxa adormecida, suavemente tentando despertá-la, como se qualquer toque desajeitado pudesse fazê-la em pedaços. 
  Seus lábios entreabertos tornavam a respiração audível, o cabelo desgrenhado caindo sobre as pálpebras que permaneciam fechadas. O meio sorriso que se formava inconscientemente denunciava os sonhos doces que ela tinha... balançava um tecido surrado para que seu gato pulasse e fizesse folia. Seu riso era despreocupado, parecia não se recordar das amarras e das chamas, o perigo parecia algo distante e ela não temia seus próprios pensamentos...
  Mas de repente o sonho se foi. Batidas firmes e agressivas eram ouvidas muito próximas. Num solavanco, estava de pé, esperando por qualquer outro ruído, amoitada no canto do quarto, como um animal assustado em meio à folhagens...
  Com um estrondo a porta foi estilhaçada. A bruxa estava diante de uma lâmina que a desafiava, e não pretendia recuar. Com um reflexo, puxou a adaga e partiu para o ataque, ferindo a perna de seu oponente, que se atirou sobre ela, prendendo seu corpo sob sua armadura imensa. Ela lutava para se desvencilhar do peso que a prendia... Gritava e sentia o perigo de novo aproximar-se... Numa onda de pavor, encontrou sua adaga e atingiu sem piedade o soldado. Ouviu seus berros, ele tentando agora escapar da feiticeira, com a lâmina tornando-se parte de suas células... e então ele desabou, sem vida.
  O corpo foi jogado de lado com certo esforço, e a bruxa decidida a ir embora, recolheu seus poucos pertences: a adaga agora ensanguentada, o livro que jamais deixara de carregar debaixo do braço e o amuleto... aquele amuleto que um dia pertenceu ao grande amor de sua vida... dono dos olhos cor de âmbar...
  Não podia deixar que as lembranças a fizessem escrava novamente. Espantou as lágrimas que ameaçavam brotar e saiu novamente pelo bosque, indo agora para o Norte, de encontro àqueles que a fizeram fugir para longe...
  A cada passo que dava o caminho parecia mais fechado, o bosque temendo que ela chegasse ao seu destino e as criaturas implorando por seu abraço materno...
  O bosque havia se tornado sua morada, após noites se escondendo e roubando para se alimentar, a bruxa provou só néctar oferecido pelas ninfas e aceitou o convite para ali reinar. Mas os motivos que a trouxeram até ali não eram assim tão poéticos... Sua alma gritou por socorro e o bosque foi o refúgio... As amarras ali foram substituídas pelos cipós e as chamas tornaram-se o crepitar de folhas esmagadas por seus pés descalços...
  Perdida em suas memórias, a jovem feiticeira tropeçou em algo e foi de encontro ao solo. Enquanto batia a poeira de suas roupas, sentiu algo fazer cócegas em seu colo, era uma pequena criatura, que escalava pelos tecidos emaranhados que vestia. 
  O ser era diferente de tudo o que já havia visto no bosque. Seus olhos brilhavam como safiras azuis e as maçãs de seu rosto pareciam saltar para fora. Delicadas asas escondiam-se por trás de seus cabelos da cor do fogo e suas roupas pareciam feitas por um bebê com dedos pequenos e desajeitados.
  Aproximando-se para analisar, a bruxa notou as marcas em sua pele. Espalhadas por todo o seu minúsculo corpo, haviam símbolos estranhamente familiares, e uma lua crescente parecia brilhar entre suas sobrancelhas...
  - Qual o seu nome? - ela indagou. Mas a criatura apenas continuou a observa-lá. - Não tenha medo de mim...
  Num súbito ele fincou suas pequenas garras afiadas nos braços da bruxa, que apertou os olhos num sinal de repreensão... o ser encolheu-se, com medo de um ataque, enquanto ela suavizava sua expressão e acolhia o ser em suas mãos.
  Ele tremia e ela pôde notar cicatrizes profundas em suas asas...
  - Quem te feriu assim?! - as lágrimas eram presentes nos olhos de ambos, e o medo também.
  - Eles estão vindo... - e o aviso levou consigo o último sopro de vida, causando o olhar sôfrego da bruxa...

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